Vida no interior da Espanha | Como é morar em uma cidade com apenas 900 habitantes?

Morar no interior sempre foi o projeto de vida para a maioria das pessoas que buscam  por tranquilidade depois de uma árdua vida trabalhando na cidade.

E esse nem é meu caso (ainda), mas mesmo no auge dos meus quase trinta anos, junto com minha familia (marido, filha e dois gatos), encaramos o desafio de deixar Valência  ( que é a 3ª maior cidade da Espanha) para ir viver em Magaz de Pisuerga.

Sim, Magaz de Pisuerga, um “pueblo” perdido pela região de Castilla y León, que eu particularmente nem sabia que estava no mapa. O mais triste disso, é que assim como esse pequeno municipio, cerca de 60% dos “pueblos” (localidades) espanhois correm o risco de realmente desaparecerem.


Parece exagero, mas não é. São mais de  4.200 municipios que estão ficando sem população e mais de mil deles a ponto de não existirem.  A maioria encontram-se na região central e ao norte do país. Algumas politicas  estão sendo colocadas em práticas, mas nem isso tem sido suficiente para freiar a troca do campo pela cidade.

Entre os vários motivos para essa “extinção” quase que massiva, está  a falta de trabalho, a baixa natalidade e a “fuga” dos jovens para os grandes centros. Isso faz com que cada vez menos espanhois e estrangeiros residentes no país tenha interesse em levar uma  vida no interior.

Como é magaZ de pisuerga ?

Magaz é um pequeno municipio, com cerca  de mil habitantes ( eu realmente vi bem menos, umas 100 pesssoas) que fica próximo a Palencia, capital da provincia de Castilha e Leão. A primeira impressão que tive ao pôr os pés ali, foi a  de  estar em uma cidade fantasma.

Uma igreja de séculos atrás, um bar (que é também hotel), casas antigas, e nenhuma alma viva pela rua. Triste. Isso em pleno verão. Fiquei impressionada, mas tentei ver o lado positivo da coisa.

Magaz de Pisuerga

 

Apesar de ser um “pueblo” tão pequeno, notei que tinha serviços básicos, como: escola, centro de saúde, praças, clube esportivo, correios, estação de trem, piscina e farmácia. Entre as quatro ou cinco ruas que compõe Magaz, também observei que era  um lugar limpo, organizado,muito tranquilo e a maioria dos seus moradores idosos.

Adaptação no interior

Quem conhece Valência ( a cidade na qual morei desde que cheguei na Espanha) sabe que apesar de ser grande, é muito mais tranquila que Madri e Barcelona.  Trocar a vida na cidade grande pelo interior pode ser algo muito bom ou não.

A vantagem de morar no campo começa pelo ponto principal de qualquer familia: O bolso. O orçamento fora das grandes capitais é inquestionavelmente  mais acessivel.

Poder viver em uma casa de três andares, jardim e acesso privativo a piscina e quadra de tênis, talvez, seja um luxo para poucos residentes das cidades grandes. Mas, ao morar no interior notamos que era possivel e mais barato que pagar por um apartamento de 90 metros quadrados na capital.


Nossa mudança para Castilha e Leão foi fruto de uma proposta de trabalho para meu marido ( que sempre trabalhou viajando). Era a vida  que estavamos pedindo: Residência a cinco minutos do trabalho, sem viagens, em uma cidade tranquila para criar os filhos e financeiramente acessivel.

Abrindo um parentesses rapidinho 

Na Espanha existem diversos tipos de “pueblos”. Os que estão mais próximos a cidade grande ( e que muitas vezes parecem mais bairros do que municipio) e os que estão afastados. Alguns possuem boa conexão através de trens e metrôs e outros não. Alguns possuem grandes supermercados, shoppings, cinemas e outros não. Fechando parenteses 🙂

Continuando…

Chegamos em Palencia em pleno verão espanhol e diferentemente de Valência, nessa parte do país o calor não é sufocante. Os dias foram passando e aproveitamos para conhecer a região. Visitamos Santander (que fica a 1hora de carro), conhecemos Valladolid e Burgos.

Palencia é a capital menos visitada da Espanha. Realmente a oferta turistica nessa região não se pode comparar com o restante do país. Visitei a catedral de Palencia, uma jóia da história e arquitetura da Europa, mas que poucos espanhois conhecem. Turismo, não é o forte dessa parte do país, infelizmente.

Qualidade de vida

A vida no interior nos trouxe mais qualidade de vida. Respiravamos melhor, passamos a ter menos horas no trânsito, mais tempo em familia, minha filha e meus gatos mais liberdade ao estarem na rua e  podiamos fazer praticamente tudo a pé (afinal, tanto Magaz de Pisuerga quanto Palência, são cidades pequenas).

No interior todo mundo se conhece. Você até pode não saber quem são seus vizinhos, mas com certeza eles saberão quem você é  haha. A oferta de lazer passa de shoppings, cinemas, teatros e  festas, para passeios em biclicleta, caminhada entre as montanhas e esportes vinculados com a natureza.

Minha filha andando de bicicleta no campo

Não que em Palencia você não tenha isso, mas é algo totalmente diferente. Tanto é, que muitos moradores fazem a “vida social” em cidades mais agitadas, como Valladolid e Burgos.

Nem preciso falar sobre o fator segurança, né? Muitas vezes saiamos e deixavamos a porta da garagem aberta, igualmente como os vizinhos e nunca nos roubaram nem uma flor. O índice de violência e criminalidade é extremamente baixo, a última pessoa que morreu ali foi de velhice.

O lado B da vida no Interior

Já dizia o ditado: Nem tudo que reluz é ouro. Eu assino embaixo.  Em qualquer canto do mundo, você vai encontrar vantagens e desvantagens. Obviamente que isso varia de uma pessoa para outra. No nosso caso, viver sem  o apoio da familia foi a parte mais complicada. Meus sogros, por exemplo, são fundamentais na hora de dar aquela mãozinha.

Outro ponto importante é a questão laboral. Nem todas as pequenas cidades possuem vagas de trabalho suficiente, e por isso, muita gente pula fora. Se você é estrangeiro e recem-chegado ao país, é bom saber que o jeito de ser dos espanhóis é diferente de uma região para outra. Nessa parte do país (ao norte também), eles costumam ser mais fechados e muito mais diretos ao falar.

Fazer amizades pode ou não ser dificil. Isso é algo tão relativo. Eu tive a sorte de encontrar uma super amiga, que além de me apresentar a cidade, me deu bastante apoio em tudo que precisei. Além disso, fui bem recebida em Palencia. Não tive problemas e nem me senti rejeitada.

Das coisas que não gostei ao morar ali, foram relacionadas ao lazer. Ir ao cinema ou a restaurantes é bem mais caro do que em Valencia, por exemplo. Além disso, o fato de depender do transporte público ( se você mora em um pueblo afastado) é que os horários são escassos.

Para os amantes de temperaturas mais baixas, bem-vindos ao lugar perfeito. Essa é uma das regiões mais frias da Espanha. O outono foi razoável… até começar a fazer – 1ºC. SENHOR, que frio!! É tenso demais, sair da cama bem cedinho, encarar o vento gelado na cara e esperar a boa vontade do ônibus passar.

Interior é sinônimo de tranquilidade e menos estresse, né? Até você precisar usar a internet. É de tirar qualquer um do sério. Mas, claro que isso vai depender da localidade que você está. Em Magaz, subir um texto no blog ou ver um filme pela internet é algo que requer muita paciência.

Como vocês podem ver, as desvantagens no meu caso, podem até ser comparadas a coisas superfulas. Eu realmente não encontrei tantos problemas para viver em um “pueblo”, é tudo uma questão de pesar os prós e contras para você e sua familia. E claro, de se adaptar com o passar do tempo.


 

Que pueblo escolher ?

Se você tem em mente ir viver em um pueblo é preciso ter em consideração alguns pontos extremamente importantes, por exemplo:

• Trabalho. Escolha por cidades que possuam industrias próximas ou que tenha oferta turistica. Em alguns pueblos certas profissões são importantes e a possibilidade de conseguir uma vaga de trabalho é maior, já outras carreiras podem ficar totalmente sem saídas.
• Fique por dentro dos projetos socias. Em Magaz, por exemplo, havia reforço escolar, aulas de inglês, incentivo para ter outros filhos, etc.
• Não se isole. Como escrevi acima, existem vários tipos de pueblos. Alguns estão totalmente isolados de médias e grandes cidades. Se você busca ficar sozinho, então esse não é bem um problema. 🙂
• Conheça a cidade antes de mudar definitivamente. Saiba sobre o clima, costumes, custo de vida, etc.

Depois de alguns meses, chegou a hora de fazer o caminho de volta. Outra vez em um pueblo, mas próximo da cidade que amo: Valência!


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Saludos!!

 

 



Taiana Jimenez

Sou brasileira, residente e apaixonada pela Espanha. Amante de viagens e da cultura espanhola, compartilho com vocês minha experiência e as melhores dicas para quem deseja morar, estudar ou turistar pela terra de Cervantes!