O parto normal na Espanha – Minha experiência

Há duas semanas tive uma das experiências mais intensas e emocionantes da minha vida: O nascimento do meu segundo filho. E ele veio da maneira que eu mais desejava. Por meio de um parto natural, respeitado e humanizado.

De todas as coisas que vivenciei na Espanha, essa sem sombra de dúvidas, foi a mais marcante de todas. E no post de hoje, quero dividir esse momento com vocês! 🙂

Meu pré-natal na Espanha

A primeira vez que minha matrona (enfermeira especializada em ginecologia) sugeriu um parto humanizado, confesso que fiquei com os dois pés atrás. Afinal, há nove anos tinha dado a luz a minha primeira filha através de uma cesárea.

E na minha cabeça, ter um parto vaginal depois de ter tido uma  cirurgia tão invasiva era colocar meio pé na cova. Pura ignorância da minha parte.

No decorrer dos meses, durante meu pré-natal fui apresentada aos benefícios de um parto respeitado, humanizado e com a mínima intervenção médica.

Nessa mesma época, por acaso do destino ou não, vagando na Netflix me deparei com um documentário espetacular sobre o tema.

O renascimento do parto fez eu me sentir identificada com a maioria dos casos apresentados e desde aquele instante decidi que se meu corpo estivesse apto para um parto natural, estaria disposta a enfrentar as dores, incertezas e os medos para trazer meu filhote ao mundo.

Durante 38 semanas preparei meu corpo e minha cabeça para esse momento. Aqui na Espanha tive  suporte em todos os aspectos e eles foram fundamentais. Me senti a todo momento acompanhada de excelentes profissionais.

Neste texto conto detalhadamente como é realizado o pré-natal na Espanha: Maternidade na Espanha: do pré-natal ao puerpério.

 

O Grande dia

Quando tive minha filha em 2009 não experimentei a dor de uma contração, pois passei diretamente para um bloco cirúrgico as 37 semanas de gestação.

Não tinha ideia de como iniciaria meu trabalho de parto e estava bastante apreensiva e ansiosa durante a reta final.

Todas as mulheres que me rodeavam diziam sempre o mesmo: “Não se preocupa, você vai saber quando chegar o momento”, “Seu corpo vai te avisar”, “Confia no seu sexto sentido”. E elas estavam realmente certas.

Ainda não tinha amanhecido e junto com os primeiros raios de luz chegaram as benditas contrações. A principio não senti dor e sim um incomodo que lembrava de longe uma cólica abdominal.

Imediatamente pensei: Será que hoje é o grande dia? Já estava de quase quarenta semanas e sabia que se não fosse, com certeza, a chegada do meu pacotinho estava próxima.

As horas foram passando e a dor aumentando. Era bastante suportável e tentava controlar com técnicas de respirações ensinadas durante o pré-natal. Funcionou, mas não por muito tempo.

Com o hospital pertinho de casa, decidir sair de dúvidas e ir até lá para saber se realmente estava em trabalho de parto ou não. O atendimento foi rápido e cheio de empatia.

Em poucos minutos estava sendo examinada pelo enfermeiro responsável ( matrón) e como um banho de agua fria no inverno ele me comunicou que eu não havia dilatado nada. Bateu o desespero. 🙁

A única coisa que pensada era que aquela dor ia ser dali pra pior. Será que meu corpo ia suportar? Engoli o choro, respirei fundo e outra vez confiei no meu corpo. Eu havia me preparado para aquele momento. Era respirar e esperar.

Mesmo não estando em trabalho de parto, fui encaminhada para um quarto para monitorarem os batimentos cardíacos do bebe, a frequência e intensidade das contrações.

E meu povo, parece obra do destino, a dor simplesmente diminui e as contrações praticamente desapareceram.

Uma das auxiliares de enfermagem perguntou se eu gostaria de ficar mais tempo no hospital ou voltar em outro momento. Escolhi a segunda opção.

Mas aí, foi colocar o pé na rua e a bendita dor voltou com tudo e um pouco mais. Porém, como não estava em trabalho de parto decidi ir caminhando para casa. Em vão. Consegui andar alguns metros até um restaurante.

Era uma lágrima e uma garfada. Tinha que comer algo e não queria voltar ao hospital depois de ter saído há quinze minutos.

De barriga cheia, literalmente, saímos do restaurante e caminhamos por uma hora para tentar acelerar o processo do parto. Deu resultado.

A dor já era maior que tudo e mal conseguia dar um passo. Mesmo assim eu queria ir para casa e não para o hospital. Imaginava que a dor tinha que chegar ao extremo do insuportável para enfim estar em trabalho de parto.

Por insistência do meu marido, decidi voltar ao hospital e fui recebida por outro enfermeiro. De não estar em trabalho de parto a ter dilatado 7 centímetros em pouco tempo foi Deus segurando na minha mão.

Minha bolsa estourou e  em seguida me ofereceram a anestesia peridural. Confesso que não pensei duas vezes e disse que sim. O mais rápido possível.

Em um intervalo de cinco minutos, enquanto o anestesista chegava tive uma contração muito forte. E foi aí que não deu tempo de nada. Nem epidural, nem qualquer outra anestesia, nem mesmo de ser apresentada ao enfermeiro que faria meu parto.

Era hora de empurrar. E assim foi, em cinco empurrões meu segundo filho chegou ao mundo. Sem cortes, sem violência obstétrica, em um ambiente tranquilo, respeitado e íntimo.

Na sala de parto éramos apenas quatro pessoas: eu, meu marido, o enfermeiro e uma auxiliar. Escutei palavras de compaixão e mensagens positivas a todo momento. “Você pode”, “Você consegue”, “Ele já está aqui”.

“Cógelo con tus manos”. Nem acreditei. Eu mesmo recebi meu filho com minhas próprias mãos. Foi uma experiência muito além do que eu havia imaginado durante todos os meses de gravidez.

Foi intenso, doloroso e ao mesmo tempo um momento respeitado, natural e humanizado. Ficamos juntinhos, fazendo o famoso “Piel com piel”, antes de darem seguimentos ao protocolo hospitalar.

É incrível como vamos do “inferno” ao céu em segundos. Não sentia mais nada. Só serenidade, amor e uma alegria imensa por ter confiado em mim.

A auxiliar de enfermagem me higienizou com todo cuidado e fomos levados para um quarto. O ambiente mal lembrava um local hospitalar.

Quarto individual, bem equipado, com tudo novo e confortável. Ficamos 48 horas e nesse tempo fui examinada por ginecologistas, enfermeiras e auxiliares. Recebi orientações para o pós parto e para ter eficácia na amamentação.

A recuperação foi e está sendo ótima. Incomparável com meu primeiro parto (cesárea). Sem dúvida, se tivesse que passar novamente por isso, passaria.

Agora a caminhada continua, das mais diferentes formas, mas posso adiantar para vocês que nesses primeiros dias a sensação de ter passado a noite dançando axé com o Beto Jamaica e Compadre Washington já é maior que tudo. Mortaaaa de cansada, porém feliz!

 

O Parto humanizado na Espanha

Muitos hospitais espanhóis, já sejam eles públicos ou particulares, estão mudando seus protocolos em relação ao parto.

Cada vez mais mulheres estão optando em dar à luz através de um parto natural, com mínima intervenção e em um entorno íntimo e pessoal.

Claro que para isso é preciso que durante o pré-natal não seja detectado complicações que coloquem em risco a vida da mamãe e do bebe. Ou seja, o parto natural nunca será forçado e sim examinado continuamente para saber se é viável ou não.

Outro ponto forte é o papel do “Plano de parto” que é apresentado as futuras mamães e nele elas podem decidir o que desejam ou não durante esse momento. Sempre e quando for viável, obviamente.

Eu, por exemplo, coloquei no meu plano de parto que gostaria de ter meu bebe de forma natural, em um entorno íntimo e que se eu quisesse, poderia mudar de posição ou pedir a anestesia peridural a qualquer momento.

O hospital na qual ganhei meu bebe é referência em partos naturais, inclusive, possui uma “casa de partos”, que consiste em um local aonde a mulher pode dar à luz em um entorno similar à sua casa.

Cada vez mais centros de saúde estão se adaptando a isso e oferecendo a possibilidade de partos humanizados e respeitando a decisão das mulheres, fazendo pouco ou nenhum uso de técnicas consideradas desnecessárias (como a episiotonia)

Além disso, o tempo é outro fator respeitado. Não existe pressa. O bebe chega quando tem que chegar. A mulher em todo momento pode ter acesso a anestesia e ainda assim lograr ter um parto vaginal ao invés de uma cesárea.

Acredito que ainda temos um largo caminho a percorrer, mas como sempre digo, cada passo conta. Estou muito feliz de ter vivenciado essa experiência na Espanha e muito feliz de ter sido tratada com amabilidade e respeito em todo momento.

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Saludos!!

 

Taiana Jimenez

Sou brasileira, residente e apaixonada pela Espanha. Amante de viagens e da cultura espanhola, compartilho com vocês minha experiência e as melhores dicas para quem deseja morar, estudar ou turistar pela terra de Cervantes!

4 Replies to “O parto normal na Espanha – Minha experiência

  1. Oi Taiana! Tive meu primeiro parto no Brasil domiciliar e fico muito feliz por você ter tido um parto respeitoso, normal, acolhedor e humanizado na Espanha! Isso empodera a gente né? Você teve esse parto em Valência, né? Sabe me informar se em Girona possui alguma casa de parto nesse sentido, ou se tem algum hospital lá que tem esses espaços com banheira, corda, etc, pra mulher parir?
    Muito agradecida desde já pela atenção!

    1. Ola Luisa, realmente meu parto foi maravilhoso. Uma experiência única e inesquecivel. Tive meu bebe no Hospital de Manises (Valencia). Acredito que no Hospital Santa Caterina ( em girona) tenha assistência ao parto humanizado. 🙂

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